Mesmo com a seca que assola municípios do interior, criadores de abelha encontram saída para sustentar família
Itatira.
A busca da harmonia entre as atividades econômicas e a preservação dos
recursos naturais demanda ações bastante abrangentes, exigindo uma ampla
ação cooperativa multidisciplinar. Isso mostra o quanto o homem
sertanejo encontra saídas para o convívio com a seca. Mesmo em situações
adversas, agricultores deixaram para trás a enxada e as sementes e
deram início a outro meio de vida.
Produtores de Itatira observam as abelhas no trabalho das colmeias Fotos: Antônio Carlos AlvesPai
e filho estão dando exemplos de criatividade no Município de Itatira. A
criação de abelhas sem ferrão. A primeira colheita de mel de Jandaíra
na localidade de Arisco - São José, a cinco quilômetros da sede de
Itatira, é como um " trabalho de parto". Até o pote ficar cheio, zelo
extremo com a higiene e cria. Os criadores chegam a ouvir e conversar
com as abelhas. A produção de mel, além dos benefícios para a saúde e ao
meio ambiente, está transformando a vida de agricultores familiares da
região serrana. Francisco Sousa Loiola, de 62 anos, e Milton Carlos
Cabral Loiola, de 36 anos, estão entre os maiores criadores de abelhas
nativas, abelhas sem ferrão ou indígenas do Estado do Ceará.
Numa
área protegida por alpendres cobertos com telhas, estão instaladas 81
colmeias de Jandaíra, três de Cupira e uma de Tuíba, abelhas que vivem
em regiões protegidas dos ataques do homem e da degradação ambiental.
Para se ter uma ideia da preservação dos criadores de Arisco, é que os
cortiços são feitos de troncos de árvores perdidos no meio da caatinga e
reaproveitados para moradas das abelhas nativas. "São pedaços de
madeira tirados do meio ambiente e transformados em espaços para abrigar
as Jandaíras", frisa Milton Carlos.
Segundo Francisco Sousa,
quando o inverno é bom dá para se colher entre um e dois litros de mel
de Jandaíra por ano. "Com essa seca, uma das maiores da história do
Nordeste, iremos produzir em torno de um litro e meio por cada colmeia. É
um negócio rentável. Cada litro custa hoje R$ 100,00", explica. A
previsão é de produção de 100 litros de mel.
O filho, Milton
Carlos, diz que a criação das abelhas nativas mudou o seu conceito em
relação ao meio ambiente. "Antes eu não tinha muito interesse por esse
negócio de preservar a natureza. Hoje vejo outra realidade e o que é
mais importante, consigo repassar para meus amigos a importância desse
processo para a preservação das espécies", frisa.
Além da
Jandaíra, Milton Carlos cria três colmeias de Cupira, que produz dois
litros de mel por ano a preço de R$ 25,00 e uma Tuíba, que garante um
litro e meio ano do produto que custa R$ 30,00. "Toda a nossa produção
já está encomendada para a Capital cearense. Vendemos para empresários
da região do Centro de Abastecimento da Ceasa", diz.
Outro que
cria Jandaíra é João Batista dos Santos, de 46 anos, conhecido em
Itatira por Sidoca e que mora há 819 metros acima do nível do mar. Há
dois anos entrou no ramo e já conta com dez colmeias, chamados também de
cortiços. "É um negócio em expansão e multiplicação. De um enxame estou
fazendo dois". De acordo com o produtor, quando a flora é boa a
produção chega de 1 a 2 litros - ano. "Nossa região é rica em
marmeleiro, retirina, flor do feijão, cabeça branco, arapiraca,
grinalda, entre outros, as plantas que auxiliam na fabricação do mel".
"Tudo
que estiver pronto para comercialização será levado em julho para a
Expoece em Fortaleza. O produto é muito apreciado na Capital, por ser um
mel diferenciado e medicinal", diz. Para Sidoca, criar abelhas é mais
rentável do que criar galinhas, os custos são mínimos e não exige muito
cuidados, porque a Jandaíra é nativa do campo e ajuda a preservar o meio
ambiente.
A extinção dessas espécies causaria um problema
ecológico, uma vez que são responsáveis, dependendo do bioma, pela
polinização de 80 a 90% das plantas nativas no Brasil.
Mais informações
Rua: 25 de março - 1060
Bairro do Conjunto, Itatira
(88) 8124.6724
Assentamento Santa Terezinha
Itatira - Ceará
Projeto trabalha na preservação de abelhas
Itatira.
Conscientes do problema, os técnicos Domingos Sávio, da Emartece de
Canindé, e Aníbal Moreira, do Instituto Agropolos do Ceará, trabalham um
projeto de preservação e expansão da abelha Jandaíra, nos Sertões de
Canindé. Domingos Sávio lembra que o Governo brasileiro, por meio do
Conselho Nacional do Meio Ambiente, publicou no Diário Oficial da União,
em 17 de agosto de 2004, resolução nº 346 de 06 de julho de 2004, que
disciplina a utilização de abelhas silvestres nativas bem como a
implementação do meliponário. Para ele, que todas as quartas-feiras
visita a região de Itatira para prestar assistência aos criadores de
Jandaíra, sabe-se que somente a criação de uma legislação normativa não é
suficiente para preservação de espécies da fauna e flora nativa. "É
necessário também um programa informativo visando a capacitação e
sensibilização, para que os produtores não só sejam conscientizados, mas
também sejam capazes de mobilizar e informar aos seus vizinhos sobre os
problemas", explica.
O
litro do mel de Jandaíra custa R$ 100,00, pela sua raridade na
produção. A previsão dos produtores é chegar ao patamar de 100 litros de
mel neste ano
"Precisamos criar mecanismos para evitarmos a
retirada indiscriminada dessas abelhas da mata. A criação dos
meliponídeos deve ser realizada com responsabilidade para evitar a
extinção das abelhas e a médio e longo prazo, a extinção desse
importante agente polinizador", alerta Domingos Sávio.
Dóceis
"A
criação de abelhas sem ferrão tem baixo custo e manejo fácil. Como as
espécies são dóceis, não é necessário o uso de roupas e equipamentos de
proteção para lidar com elas. Outra vantagem é que a atividade pode ser
realizada até em áreas urbanas, como o quintal de uma residência,
convivendo com pessoas e animais domésticos, desde que haja vegetação na
vizinhança". Essas espécies vivem em colônias compostas por muitas
operárias, que são as responsáveis pela construção e manutenção das
colmeias, e por uma rainha geradora de ovos, que dão origem a novas
abelhas. Os ninhos em geral, são instalados em troncos e galhos de
árvores, mas também podem ser encontrados em mourões de cerca, alicerces
de construção, cupinzeiros e locais subterrâneos, como formigueiros.
Com ou sem ferrão, as abelhas têm uma função importante na natureza. São
polinizadoras de plantas, permitindo a floração e a produção de
sementes e frutos.
As abelhas são fundamentais para a manutenção
da vegetação natural e cultivada, pois, pela polinização e consequente
produção de frutos e sementes, contribuem para a perpetuação de muitas
espécies nativas e de culturas agrícolas. São importantes formadores de
renda para as populações rurais e peri-urbanas, pois aumentam e melhoram
a produção de frutos, além de possibilitar a comercialização de mel,
própolis, pólen e das próprias colônias.
ExtinçãoNo
entanto, apesar desse papel como elemento fundamental à
sustentabilidade das áreas com vegetação natural, a maioria da população
desconhece a existência e a importância das abelhas nativas. E para
salvar as abelhas indígenas, o que fazer? Segundo pesquisadores do tema,
serão necessárias algumas ações primordiais como: que cada criador
brasileiro, com consciência ecológica, crie 60 colônias de uma única
espécie de abelha sem ferrão de sua região, para evitar a endogamia; que
este processo seja iniciado com as espécies de Melipona de cada região,
as mais atacadas por meleiros e as que estão mais próximas da extinção.
ANTÔNIO CARLOS ALVESCOLABORADOR